18.3.08

O poker e a conquista

Texto publicado na revista Card Player Brasil nº 3, de setembro de 2007


O leitor da Card Player Brasil sabe muito bem que um bom jogador de poker não é apenas um bom jogador de poker. Nosso jogo pede ao praticante uma boa dose de inteligência, agilidade, frieza, iniciativa, além de uma pitada de sorte. Mas ao olharmos bem, são essas mesmas características as que fazem de uma pessoa alguém bem sucedido nas finanças, no trabalho, e, porque não, no amor. Por isso, não há exagero em afirmar que um bom jogador de poker pode se dar bem em outras áreas, aplicando as leis do jogo e interpretando os eventos do dia-a-dia como se estivesse no pano verde.

Desta forma, esqueçam o velho chavão sorte no jogo, azar no amor. A Card Player Brasil, sempre inovando, encarregou sua Assessoria para Relacionamentos Amorosos de provar cientificamente que uma conquista amorosa e um jogo de poker têm muitos pontos e comum.

Antes que o incrédulo leitor solteirão resolva largar esta revista e voltar às suas simpatias pé-de-pato-bangalô-três-vezes para conseguir uma alma-gêmea, passemos às nossas evidências científicas.

Você está em um bar e vê uma linda garota bebericando um martini. Se estivesse em uma partida de poker, nesta situação você estaria no pré-flop. Então, você se olha e confirma que está muito bem vestido. Seu hálito está bom, a barba bem feita e cabelos bem arrumados. A garota olha em sua direção algumas vezes. Vendo-se assim, você deve ter uma boa mão, provavelmente algo como AA. Sua primeira vontade é de ser agressivo e aumentar o pote já no pré-flop, partindo para o ataque, afinal, dificilmente ela terá uma mão mais forte que a sua, correto?

Errado. Ela não só tem uma mão mais forte, como também todo um braço! Está vendo o grandalhão tatuado logo ao lado dela? É seu namorado. Então, neste caso, esqueça o pote ainda no pré-flop... a menos que você queira ganhar uns hematomas.

Isto também funciona para as leitoras. Suponhamos que você, leitora, está jantando com aquele sujeito que sempre lhe fez suspirar. Se ele lhe convidou, é porque tem interesse... Assim, pode acreditar, você tem A K. Ele diz que sempre lhe achou atraente, interessante, sinal que o flop vem com algo como 10 J 8. Ótimas chances de fazer um straight, não? Mas você não quer parecer muito atirada para que ele não se assuste, por isso vai controlando o tamanho do pote, sem parecer agressiva, embora devesse. Já ele, parece estar confiante e sorri para você de maneira sedutora. “Deve estar blefando, o canalha”, você pensa.

O turn e o river vêm com 10 Q. A esta altura o jantar está no fim e você percebe que tomou um pouco mais de vinho do que deveria. Não importa: você fez um straight, e sabe que a noite é sua. No entanto, quando ele baixa as cartas, mostra A 7. É, amiga... ele fez um flush e venceu a partida. Mas você, cara leitora, nem se importa com esse detalhe, afinal, sabe muito bem deixar os homens acreditarem que estão dominando a situação, quando na verdade é você quem dá as cartas. E, convenhamos, com tantas cartas daquele naipe, tudo leva a crer que a noite reserva um flush daqueles...

Também podemos avaliar o risco de um relacionamento, pesando de maneira consciente a mão e decidindo o quanto estamos dispostos a apostar nela. Vejamos como:

Se você está jogando apenas para se divertir, não importa ganhar ou perder, não é mesmo? Desta forma, o jogo ocorre muito rapidamente, já que o entretenimento é o que realmente você procura. Você nem se preocupa muito com sua mão, o flop veio 79J, e o turn é Q. você olha e dá um sorrisinho. Pensa “valete, rainha, hmm, sinal que a noite será ótima!”. Você já está lá todo fogoso e quando abre o river, sua companheira franze a testa: “Oh-oh, um K!!!...”, ela diz.

O rei. O que isto significa? Está ouvindo baterem na porta? É o marido dela chegando. E você não vai querer disputar o pote com o dono do baralho, vai? Então dê logo fold, e procure um armário bem confortável. Ah, e torça bastante pro sujeito ser o tal big blind!

Bill Hickok

Ilustração feita para o texto abaixo, publicada na revista Card Player Brasil, nº 2 em agosto de 2007.

9.1.08

Contos da Cripta, vol. 2: A Maldição da Dead Man's Hand

*Texto publicado na revista Card Player Brasil nº 2, em agosto/2007.


O leitor desta coluna certamente já ouviu falar da Dead Man’s Hand, ou Mão do Homem Morto. Consiste da mão formada por par de A8. A origem da Dead Man’s Hand remonta ao Velho Oeste, quando em 2 de agosto de 1876, Bill Hickok foi assassinado durante uma partida de poker, e tinha na mão justamente dois pares de A8. A quinta carta ainda hoje é controversa, ora figurando como 5 ora como 9 de ouros.

Sim, pois a Dead Man’s Hand faz parte da cultura do poker. Há referências dela no cinema, na música (Rambling, Gambling Willie, do Bob Dylan, por exemplo) e até mesmo nos quadrinhos europeus, como em Lucky Luke de Goscinny e em Blueberry dos gênios Charlier e Moebius.

Mas, o que Hickok teve de tão importante a ponto de se batizar uma mão com esse nome, graças a sua morte, deve perguntar o incauto leitor. É o que nossa reportagem procura elucidar nesta coluna. De fato, Hickok não era um jogador muito melhor do que a média dos jogadores da época. Na verdade, inicialmente ele tinha fama de jogador afoito, impulsivo, e um adversário só um pouco perspicaz poderia vencê-lo facilmente, graças a esse defeito. Entretanto, depois de um tempo ninguém se atrevia a levar suas fichas, pois Bill Hickok além da reputação já citada tinha outra muito pior: se dizia afilhado do diabo. E mais: dizia-se dele que ele já havia morrido, oportunidade em que foi batizado pelo tinhoso e voltou à vida logo depois.

Antes que o apavorado leitor saia à procura do Padre Quevedo para afirmar que isso non ecxiste, passemos às evidências históricas de nossa pesquisa.

Como já foi dito, Hickok inicialmente era conhecido como um mau jogador. Em certa oportunidade foi flagrado com dois A na manga do paletó. Como na época trapaça se pagava à bala, tomou do croupier um tiro no peito. Foi dado como morto, mas recuperou-se milagrosamente. Dessa ocasião, surgiu a lenda do batismo feito pelo capeta. Não se sabe em que circunstâncias isso se deu, mas o fato é que a cura repentina e a nova habilidade no poker deixou todos desconfiados.

Dizem que a primeira partida que ganhou depois da recuperação, o fez com uma trinca de 6.

Logo a fama de Bill Hickok se espalhou pelo Velho Oeste e surgiam desafiantes de todos os locais, que nunca o conseguiam vencer. Seu aspecto moribundo e sombrio causava medo em seus desafiantes, especialmente quando Hickok dizia com sua voz cavernosa:

- Raaaaaaiiiiise! – e depositava suas fichas no pote.

Mas todo contrato com o coisa-ruim tem lá suas letras miúdas. O termo final da sorte de Hickok já estava assinalado: seria em um mês de agosto, no dia em que recebesse uma mão de A e 8.

Especula-se a razão de serem justamente essas cartas. A assessoria em numerologia e artes místicas da Card Player Brasil afirmou que deve ser pelo fato do A representar tanto o início como o fim numa seqüência de cartas e do 8 ser o símbolo do infinito. O fato é que, ao receber as cartas, Bill viu em sua mão dois pares de A8 (não, eles não jogavam o Hold’em) e se desesperou.

- Er, eu saio! – e baixou suas cartas.

Nova rodada, e outra vez, Hickok recebe a mesma mão.

- Estou fora! – baixando-a novamente.

Tantas desistências seguidas com a mesma mão causaram desconfiança nos demais jogadores. Parecia evidente que Hickok estava trapaceando. E como já foi acima, trapaça se pagava à vista e à bala. Quando viram pela quarta vez que Hickok trazia A8 nas mãos, algum enfezado levantou-se e BLAM! – acabou com a carreira de sucesso de Bill Hickok:

- Ui, morri! – disse, sem largar as malditas cartas.

A partir daí, a história da mão do homem morto espalhou-se como notícias sobre a Paris Hilton. Todos os jogadores que recebiam essa mão a viam com desconfiança, não gastando muito de suas fichas nela. A maioria, porém, entende esta história como um mero folclore do poker.

Não obstante, nossa reportagem averiguou que a crença em uma maldição da Dead Man’s Hand ainda persiste. Há relatos de pessoas famosas que morreram durante uma partida de poker, ou logo depois de abandoná-las. Dizem de um ex-presidente do Brasil, há décadas falecido, que suas últimas palavras ao se despedir de uma mesa de poker foram: “saio da mesa para entrar para a história!”. Encontraram-no morto em seu quarto. Era um mês de agosto. E adivinhem qual era a sua última mão no jogo?

Nota do autor:

Caso o caro leitor seja supersticioso, deixo claro que não é preciso se preocupar. Afinal, só os fatos de estamos no mês de agosto e temos uma mão formada por A8 não querem dizer absolutamente nada. Ou seja, não é preciso ter medo, isso não passa de uma lenda. Eu estou no momento jogando online, recebi a dead man’s hand e nada me aconteceu. Só estou me atrapalhando um pouco com esse monte de crucifixos, fitinhas do Senhor do Bonfim que enroscam no mouse o tempo todo e sinceramente, rezar durante as partidas atrapalham a minha concentração. Mas como eu dizia, não é preciso ter medo...

3.12.07

Buraco de Minhoca


- Maldito calor!

Rita, que tinha os olhos perdidos em lugar nenhum, voltou-se como se tivesse sido acordada pelo homem resmungão que sentou ao seu lado no banco da praça. Acordou, pois era mesmo possível que estivesse cochilando. A aroeira sacudia preguiçosa sobre eles e sua sombra dava uma moleza... A mulher balançava a cabeça ao sabor do farfalhar e deixava morrer seus olhos de peixe. Cochilava de olhos abertos, como um peixe.

- Fala-se muito em aquecimento global hoje, mas daqui a trinta e dois anos não vai haver um dia quente como o de hoje!

Rita olhou para o homem e concordou, com um sorriso sem dentes. Mas o homem nem o viu, provavelmente havia falado consigo mesmo. Estava assistindo de longe a uma partida de futebol entre garotos no outro lado da praça. Colocou o dedo no lábio como se fosse fazer um comentário, mas absteve-se. Antes, afundou-se ainda mais no banco da praça, deixando cair o pescoço pra trás.

- É uma aroeira-do-campo, sabia?, disse o homem, apontando com o nariz para cima na direção da árvore. Daqui a vinte anos, vai estar completamente extinta.

- Hmm?

- Pois é. Apesar de se adaptar a vários tipos de clima, nunca vai se adaptar a nós.

Uma das folhas da aroeira caiu sobra a calva do homem, como se a árvore chorasse o destino que este lhe previu ou cuspisse nele só de galhofa. Incomodado com a folha na careca, ele agitou com as mãos os cabelos e sentou-se mais direito no banco. Colocou novamente os dedos sobre o lábio inferior, porém desta vez sentenciou: - Daqui a duas décadas, nem mesmo esta praça vai existir.

Rita deu uma rápida olhada pela praça, como para confirmar sua perenidade e rebateu: - Pensei que a praça fosse tombada.

- Bom, tombada é, mas sabe como são os homens. A especulação imobiliária vai chegar logo por aqui e vão dizer que na verdade o que é tombado não é a praça, mas sim aquela estátua ali, toda cagada pelos pombos. Vão fazer um shopping e deixar a estátua intacta, no meio da praça de alimentação.

- Nossa! O senhor tem uma bela imaginação!

- Ah, mas eu estou falando da verdade. Daqui a poucas décadas, todo este lugar será outro.

- Ah, naturalmente, tudo vai mudar. Mudanças são necessárias. Com todo o respeito, isso é coisa de velho com saudades da juventude.

O homem veio chegando mais perto de Rita durante a conversa. Estavam já juntos, quando ele disse irritado, sem olhar para ela: Chega a ser irônico ouvir isso de você, sabia?

- Como irônico?

- A propósito, meu nome é Pierre.

- Hmm... gosto dos nomes franceses.

- É só uma coincidência. Digo, o fato de o meu nome soar como um maldito nome francês é apenas isso, uma coincidência.

- Não entendi.

Pierre cruzou as pernas e desenhou com o indicador direito no ar um círculo. – Meu pai era matemático. Batizou os filhos com fórmulas matemáticas. Eu sou a circunferência.

- Continuo sem entender nada.

- Dois-pi-erre. É a fórmula da medida da circunferência.

- Pi... ah, entendi agora. Ficou pensativa e completou: - Isso é sério?

O homem deu-se conta de que vinha se aproximando de Rita conforme conversavam. Descruzou as pernas e voltou o espaço de outra bunda. Tornou a olhar os rapazes jogando bola, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e inclinando para frente a cabeça. Depois sussurrou, mas não tão baixo que não permitisse Rita ouvir.

- Engraçado... Quando lhe contei isso pela primeira vez, você explodiu em gargalhadas...

- Como disse?

- ...se bem que naquele dia havíamos fumado um baseado. Aliás, eu sempre me lembrava de que com esta idade, você era mais bonita. A memória tem dessas coisas.

Rita irritou-se: - O que está insinuando? Que já nos conhecemos, que eu fumo maconha?

- Bom, eu concordo que isto vai lhe soar estranho, porque ainda hoje pra mim parece loucura...

- Eu nunca lhe vi antes, senhor!

- Eu acredito isso. Mas eu já lhe vi durante muito tempo. Praticamente, dezesseis anos seguidos. Rita Pereira dos Santos, trinta e quatro anos, professora. Mora aqui pertinho, do outro lado da praça.

Rita recolheu-se no banco. - Do que está falando? O senhor fica me vigiando... é um daqueles tarados? Eu, eu vou chamar a polícia!

- Caralho! Jesus, como é a maneira simples de se dizer isto? Olha, eu sou seu marido, eu vim do futuro!

Rita manteve-se recolhida ao ouvir o que ouviu, mas logo relaxou. Arrumou os cabelos com as duas mãos e dirigiu um olhar de compaixão ao homem grisalho, gordo e calvo. É louco, esse coitado. – Quer dizer que você é meu marido? Do futuro? perguntou sarcasticamente.

- Bom. Na verdade, companheiro, já que não casamos no papel.

- Ah, tá! E de quantos anos no futuro o senhor vem?

- Pode parar de usar esse jeitinho condescendente comigo que eu lhe conheço, está bem? Sei quando você está sendo sarcástica.

Pierre fez menção de se levantar, mas apenas ergueu a coluna e coçou a cabeça. Puxou um cigarro de um bolso da calça e o isqueiro de outro.

- Entendo, Rita, que você se sinta confusa com isso tudo. Eu mesmo quase enlouqueci quando tudo começou, afinal, a história toda é maluca. Mas eu vim do futuro. Mais precisamente, trinta e dois anos no futuro.

- O senhor é um daqueles escritores excêntricos?

Pierre acende o cigarro e dá uma baforada. Está tenso. Volta os olhos aos garotos jogando bola no outro lado da praça, enquanto se recosta no banco, estirando sobre o encosto o braço direito, na direção de Rita: - Você vai me conhecer quando eu estiver com dezoito anos. Um Pierre Ferreira Gonçalves, estudante. Estou ali mesmo agora, jogando bola com outros rapazes de minha idade, está vendo? Você vai me conhecer hoje, nesta praça, e vai tentar me seduzir. Bom, não sei direito como é que isso vai acontecer. Lembro-me que eu brigo com os rapazes no futebol e o Renato (aquele ali de azul) me quebra o nariz. Depois você vem ao meu encontro e nos conhecemos.

- Jesus, o senhor é louco...

- Gostaria que não viesse falar comigo.

- O quê?

- Falar comigo. Com aquele “eu”, aquele Pierre que está ali jogando bola agora. Se o Renato me der um soco ou qualquer coisa, não fale comigo. Apenas vá embora.

- Seu Pierre, desculpe- me, mas eu vou mesmo embora! Estou ficando assustada.

- Isso! Isso mesmo, vá embora!

Rita ajeitou a saia e fez que se levantaria. Ficou. Deu um leve sorriso e perguntou, mantendo-se distante de Pierre, - Se o senhor queria apenas me ver longe daqui, porque simplesmente não me assustou ou me forçou a sair antes de inventar essa história toda? Ou porque o senhor não tira “você” de lá e me deixa em paz?

- Bom, “me” tirar eu não posso. Infelizmente, pelo que eu entendi, eu não consigo me encontrar com o meu “eu” daqui. Se tento, sempre ocorre um evento que impede que nos encontremos. Aparentemente, é impossível criar este paradoxo no espaço-tempo.

- Isto está interessante. Se for assim, porque não fingiu então que me seqüestrava? Eu não precisava saber de tudo isso, senhor viajante do tempo, e assim tudo se resolveria. Rita estava se divertindo com o jeito de Pierre, que parecia muito nervoso com o que dizia, escolhendo as palavras. É uma loucura formidável, pensou.

- Ah, eu não resistiria a torcer o seu pescoço se lhe seqüestrasse. Ainda assim, lhe contar que você arruinou a minha vida, ou arruinará daqui a um tempo, parece ser uma pequena vingança que me satisfaz.

- Nossa, eu sou tão má esposa assim?

- Não no começo. Mas olha só para nós. Eu tenho dezoito anos e você tem trinta e quatro. Quando eu estiver com trinta, você contará quarenta e seis. Depois de uns anos você vai começar a enlouquecer de ciúmes por causa disso.

- Daqui, o senhor me parece ter mais que cinqüenta.

- Agora eu tenho exatos cinqüenta anos. Por ironia outra vez, estou aqui dezesseis anos mais velho diante de você.

A mulher não conteve as gargalhadas. Pierre se irritava. Por mais óbvio que fosse o fato de que ela não acreditaria em nada, ele parecia incomodado por não conseguir dar a notícia de modo convincente.

Rita agora se recompunha e se aproximava do homem. – Tudo bem, mas onde foi que o senhor estacionou o seu De Lorean?

- Bom, eu simplesmente dormi e acordei trinta e dois anos no passado. Não sei explicar como isto se deu. Eu pesquisei sobre o assunto, mas mesmo na minha época ainda não se falava muito a respeito de viagens no tempo. Encontrei por aqui algumas coisas como buracos de minhoca, deformações causadas pela gravidade no espaço-tempo, realidades alternativas, mas nada que me explicasse o que aconteceu. Às vezes, eu imaginava que era apenas um sonho.

- O senhor é maluco!

- Ouça bem: você vai fazer da minha vida um inferno. Seria muito bom, inclusive para você mesma, que saísse daqui agora e se mantivesse longe de mim. Daqui a dezesseis anos, você dará um tiro na cabeça, por causa de ciúmes, sua louca!

- Nossa, mas que tragédia! Rita gargalhava escandalosamente. Pierre a olhou como se detestasse desde sempre aquela risada de pato.

- Assim que descobri que estava no passado, em 2006, cuidei logo de procurar minha contraparte nesta época. Foi quando descobri que um encontro entre nós dois era impossível. Mais tarde, me lembrei de um acidente de bicicleta que me causou essa cicatriz que tenho no braço direito, poucos dias antes de lhe conhecer. Agora está pequena, mas na época fez um estrago enorme. Mas veja lá: o Pierre desta época não tem a cicatriz. Foi porque na véspera, eu rasguei sorrateiramente o pneu da bicicleta. O Pierre daqui nunca sofreu o acidente.

- Não percebo nada daqui.

- Isso prova que eu posso interferir nos eventos que ocorrem com minha contraparte. Só não posso encontrá-lo pessoalmente.

Ria esganiçada a Rita.

- E o senhor veio do futuro apenas para impedir que nos conhecêssemos?

- Bom, não sei mesmo que porra eu vim fazer nesta época. Eu apenas acordei aqui já faz um ano e tenho vivido mal. Arrumei um trabalho mal pago e um quarto mobiliado aqui perto. Você é a primeira pessoa a quem eu falo do futuro desde que me dei conta de onde estava. Mas se eu podia mesmo fazer à minha contraparte do passado o favor de nunca lhe conhecer, eu precisava fazer isso!

- Essa é a coisa mais engraçada que eu já ouvi. O senhor não acha que o destino vai dar um jeito de que eu lhe conheça de outra forma e lhe arruíne a vida?

- Bom, eu tenho lido sobre realidades quânticas. O futuro não é uma linha reta e determinada, como imaginamos. Muda-se uma simples coisa agora e o futuro pode ser completamente diferente. A quantidade de realidades alternativas é praticamente infinita dada a quantidade de eventos aparentemente insignificantes que se alterados, alteram todo o futuro. Só o fato de eu trabalhar e interagir com pessoas nesta época já nos dá a possibilidade de muitas outras realidades quânticas, mas eu precisava garantir uma em que eu não lhe conhecesse. Para ver se ao menos em uma há um Pierre feliz.

- Sei. É como o bater das asas da borboleta na China que causa chuvas na casa do caralho?

- Você vai se tornar uma mulher velha e amargurada aos cinqüenta. Terá o espírito de alguém de noventa anos. Vai implicar com tudo o que eu faço, não vai conseguir suportar a juventude no meu rosto. E eu sempre lhe digo que isso é coisa de velha que tem saudades de quando jovem, daí a primeira ironia. No fim, nos separamos e você se mata.

- O senhor é o louco mais curioso que eu já conheci.

- Antes de se matar, sua bruxa, você consegue arruinar meu patrimônio, acabar com todos os meus relacionamentos, fazer da minha vida um inferno. Juro que cuspi muito no seu túmulo por dezesseis anos.

Rita não agüentava mais tanta gargalhada. Aquele sujeito era louco, definitivamente. Tentou se recompor e viu que os rapazes terminaram a partida de futebol e já se despediam. O rapaz que Pierre disse ser sua contraparte nem brigava com o amigo, como este havia previsto. Maluco mesmo, o coitado! Respirou fundo e disse – O senhor devia escrever contos. Tem uma excelente imaginação!

- Ah, quer saber? Foda-se! Foda-se, vai para o diabo! Eu desisto: se quiser se matar daqui a dezesseis anos, lembre-se de dar um tiro na barriga em vez da cabeça. Só para ao menos me dar o prazer de saber que você morreu sofrendo.

Pierre saiu irritado. Rita ainda riu muito de tudo que aquele homem lhe falava, quando viu que o rapaz que Pierre disse ser ele quando jovem passava ali por perto. Até que eram bem parecidos. Deviam ser parentes. Ela levantou e foi em sua direção, correndo.

- Ei, rapaz! Vem cá!

- Que foi?

- Qual o seu nome?

- Pierre, por quê?

- Posso ver seu braço direito? Você tem uma cicatriz aí?

- No braço direito não. Mas tenho uma grandona aqui nas costas, que fiz há uns dias, andando de skate.

- Cristo!

- Pois é. Eu queria andar de bicicleta, mas algum louco filho da puta rasgou meus pneus... daí inventei de sair de skate e me fodi.

Rita olhou a cicatriz enorme do rapaz, e ficou morrendo de pena. Aquilo devia doer uma barbaridade, ainda estava fresquinha...

– E isso não dói não? Você precisa cuidar melhor disso senão pode infeccionar, seu maluco!

- Estou cuidando.

- Estou vendo mesmo... com isso tudo inflamado, menino! Vamos, eu moro aqui perto, posso lhe fazer uns curativos.

- Tudo bem.

- A propósito, meu nome é Rita.

7.11.07

A verdadeira origem do poker

* Texto publicado na revista Card Player Brasil nº 1, em julho/2007



Uma certa nebulosidade paira sobre a origem de nossa paixão, o Poker. Entretanto, aceitamos como verdadeiros os relatos que afirmam que o Poker é um jogo nascido nos EUA. Será? Esqueçam os caubóis e as dançarinas de cabaret do Velho Oeste. Nesta coluna vamos contar a verdadeira história do jogo de cartas mais apaixonante deste setor da galáxia.

Os pesquisadores afirmam que um jogo parecido com o Poker era jogado inicialmente nos barcos do Mississipi, e o americano Jonathan H. Green o definia como um cheating game (jogo de trapaça). O Poker passou a ser mais difundido por volta de 1830, no Oeste dos EUA, onde a fartura de ouro permitia altas apostas. Seu nome poderia derivar do alemão Pochen, do francês pocaire, ou até mesmo da palavra hocus-pocus. Tudo balela! Na verdade, o grande responsável pelo surgimento do jogo foi, pasmem, nosso El Rey do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Dom João VI.

Antes que o leitor jogue esta página ao fogo e ameace me estrangular em um heads-up, passemos às evidências históricas de nossa pesquisa.

Em 1808, Dom João VI veio ao Brasil fugido da fúria conquistadora de Napoleão. Em sua bagagem, trouxe um baralho onde a figura de Napoleão estampava as cartas do rei. Remoendo sua vergonha na viagem de navio até a Terra Papagalis, Dom João embaralhava suas cartas, depois as dispunha de cinco em cinco, imaginando seqüências que poderiam derrotar Napoleão:

- Neste jogo, tenho cá dois Napoleões e três 10. Cá neste outro, tenho quatro ases. Ai, Jesus, se a vida fosse tão simples! Q’ria eu com estes quatro ases vencer dois Napoleões.

- Ó João – dizia-lhe Dona Maria, a Louca, sua mãe– Não és tu que estás a inventar o jogo? Ora pois! Podes muito bem dizer que quatro cartas de mesmo valor vençam dois Napoleões, ó pá! E, afinal, de que te vale seres rei, se não podes inventar as regras?

Com os sábios conselhos de D. Maria, desembarcou a Corte Real no Brasil. O novo passatempo de D. João era embaralhar as cartas, dispô-las em mãos de cinco, e ver em qual mão aparecia uma carta de Napoleão, para imaginar seqüências que pudessem derrotá-la. Evidentemente, nem sempre nas cinco cartas aparecia uma carta do rei, motivo pelo qual o jogo estava ficando maçante para D. João. O Imperador teve então a bela idéia de representar Napoleão em um outro jogador, e não mais na carta do rei. Para tanto, chamou um escravo da Corte, chamado Eusébio, que tinha a língua presa.

- Ó Eusébio, toma lá cinco cartas.

- Po’ quê?

- Porque estou mandando! Que tens lá? Dois pares? Rá! Ganhei!

- Po’ quê?

- Tenho um par e uma trinca. Meu jogo é melhor que o seu.

- Po’ quê?

- Por quê? Ora... porque eu inventei o jogo e invento eu as regras, ora pois! Ah, e enquanto estiveres a jogar comigo, chamar-te-ás Napoleão.

- Po’ quê?

Para deixar o jogo mais atraente e divertido, o sádico D. João convidava mais pessoas para a mesa, também serviçais do palácio. A partir de então, para se jogar, era preciso apostar. As apostas eram feitas em chibatadas: quem ganhasse a rodada, tinha direito a dar em Napoleão (no caso, o pobre Eusébio) tantas chibatadas quanto tivesse apostado. Era assim que D. João se vingava do francês. O coitado do escravo, que não tinha nada a ver com a invasão da França e não entendia patavina do jogo, sempre era açoitado. Até que, graças à inteligência e à ginga adquiridas na capoeira, decidiu que não precisava ter (ou muito menos saber que tinha) uma mão boa, caso fingisse que tinha uma. Estava criado o blefe:

- Eu aposto duas chibatadas.

- Eu cubro!

- Eu aposto t’ês – dizia Eusébio, cheio de confiança.

- Er... eu saio!

Ao baixar as cartas, Eusébio mostrava à todos que, na verdade, tinha uma mão fraca. D. João ficava enfurecido e bradava com os últimos ventos dos pulmões:

- Eusébio, isso não vale!!!

- Po’ quê?

D. João não admitia perder para “Napoleão” novamente. Para não mais ficar mais desmoralizado, esqueceu a vingança e passou a apostar em dinheiro, pois é melhor perder fortuna do que perder prestígio. Logo, o Eusébio do “Po’ quê”, como ficou conhecido, passou a ganhar o dinheiro do Imperador. Ficou rico e comprou sua liberdade. Criou uma casa de jogos, onde os fidalgos se reuniam nas noites quentes do Rio de Janeiro para jogar o famoso Po ’ quê. Também marinheiros ingleses visitavam a casa de jogos e nesse intercâmbio, o Po’quê de Eusébio migrou para os EUA e, depois de algumas adaptações e melhoramentos, virou o nosso glorioso e amado Poker.

Há ainda registros históricos de que uma das variedades mais apaixonantes do Poker, o Texas Hold’em, teria surgido na Bahia, onde os jogadores intercalavam frases como “ó, dengo” entre as partidas, com aquele cantar gostoso na fala. Uns texanos que passavam pelo local, deitando olhos gananciosos nas bacias petrolíferas de Camaçari, entendiam aquilo como “hold them” e levaram a modalidade para casa, no Texas. Mas isso já é assunto para outra coluna.

15.8.07

Busy...

Estou escrevendo um gibi, chamado Recífilis, ao qual já me referi há um ano e meio atrás, neste mesmo blogue.

Mas escrever gibis dá um trabalho danado. Além do roteirista, você também é uma espécie de diretor. Sem falar que só o roteiro, sem os desenhos, é muito chato. Dêem uma olhada em três quadrinhos apenas, da segunda página do primeiro capítulo:
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PÁGINA 2

1) MÉDIO. O SARGENTO PARDO se volta e esbraveja em direção a GILMAR CONSERVA. Enquadramento semelhante ao do quadro 4 da página anterior, porém neste o SARGENTO PARDO está com os punhos cerrados, as veias dos braços notadamente saltadas, que vemos por causa das mangas da camisa levantadas, enquanto GILMAR CONSERVA, fecha os olhos, assustado com os gritos. Nesse quadro seria interessante usar dos efeitos recorrente dos gibis, a idéia do vento relacionado ao grito. No caso, os cabelos de GILMAR CONSERVA se moveriam, juntos com outros elementos que dêem a idéia de vento.

SARGENTO PARDO (Gritando)

Você tem idéia do volume que cem notas de um real ocupa, tem?!!! Consegue levar isso tudo a um banco pra depositar sem levantar suspeitas, hein, hein?!!!

2) MÉDIO. O SARGENTO PARDO, já recomposto do nervosismo anterior, caminha tranqüilamente em direção ao local que estava anteriormente, ao lado do mapa. Durante o caminho, ele arruma os punhos de sua camisa. Lembrar que ainda não temos o seu rosto no enquadramento, até o fim do capítulo. Tente mostrar um ângulo oposto ao mostrado até agora, que é o lado direito de quem assiste a palestra. Posicione a câmera como se estivesse no lugar do colega à direita de GILMAR CONSERVA, dando uma visão central só que mais à esquerda, pegando o SARGENTO PARDO quase de costas.

SARGENTO PARDO

Dinheiro de droga é dinheiro miúdo. Notas de um, dois ou cinco reais.

3) PEQUENO. GILMAR CONSERVA tenta se recompor da bronca recebida há pouco. Ajeita os cabelos enquanto pega o lápis que caiu de sua mão com o susto.

SARGENTO PARDO (FORA DO QUADRO)

A Polícia Federal se atrapalha sozinha com suas próprias vaidades.

(LINK)

Não inventaram nenhum nome maneiro para esta operação, então ela não será problema para ninguém.

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Mas logo volto aos textos engraçadinhos, juro.

1.8.07

Sem saco

Estava sem saco pra esse blogue. Mas o Dr. Pitangueiras me disse que o blogue e eu poderíamos ter juntos uma vida saudável, mesmo eu não tendo mais saco. Na verdade, sabendo administrar a nova situação, poderemos descobrir juntos uma série de vantagens.

Por exemplo, como eu gostava de ver comentários nos meus textos, acabava pentelhando nos blogues amigos, para ver se alguém pentelhava de volta. Agora
sem saco, não há mais pentelhação.

Também tinha minha família, que é toda conservadora e freqüentemente reclamava do conteúdo dos meus textos. "Seu texto é muito
escroto!", chiava a minha tia-avó. Dizia-me o Dr. Pitangueiras que isso vai acabar agora: sem saco, sem escrotice.

Tá, são duas vantagens. Porém eu ainda tentei contra-argumentar com o doutor. "Mas Dr. Pitangueiras! Foi graças ao que eu escrevia nesse blogue que eu consegui chamar atenção de uma revista, que me contratou pra escrever mensalmente uma coluna de humor. E é com esse dinheiro que eu pago o leite das crianças! Não posso ficar assim com o
Borrão. Sabe como é, doutor: sem saco, sem leitinho!"

O Dr. Pitangueiras entendeu minha insatisfação e me passou um remedinho azul que parece compensar a falta de saco. Então, estou de volta ao Borrão depois de muito tempo. Como estou envolvido com um monte de outros projetos, não vou conseguir postar com a mesma freqüência dos bons tempos, mas vou fazer o que eu puder. Mas, pelo menos um texto por mês, eu garanto: a Card Player Brasil, a revista para quem estou escrevendo, autorizou-me a publicar os textos que eu faço para a revista aqui no blogue, desde que desse um intervalo entre a publicação da revista na banca e a publicação aqui. Então, já no mês de setembro, publico no Borrão a coluna do mês de julho da revista. E assim por diante.

Mas, os leitores do Borrão que gostam de
poker, podem se antecipar e comprar nas bancas a revista Card Player Brasil, ou entrar no link acima, conferir o site e fazer uma assinatura. A revista é excelente, muito bem feita, com um time de colaboradores de primeira linha. Lá, tenho a coluna Humor do Baralho, que fala com bom humor sobre histórias do mundo do poker. Não tive coragem de assinar com meu nome verdadeiro, Roxá Silva, então preferi usar um pseudônimo mais bonito, que me fizesse parecer inteligente. Por isso, na revista assino George Queiroz.

Então é isso. Espero que as pílulas do Dr. Pitangueiras realmente façam efeito, pois quero novamente ter tesão de escrever para este blogue. Tenho que voltar a ter saco pra isso, pois sabe como é,
sem saco, sem tesão.

6.3.07

A vida imita a música

Era tarde, e o enterro do Paulão tinha me deixado fatigado. Saí do cemitério cabisbaixo quando um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos. Aparentemente, ele havia sido expulso do velório por causa de seu estado alcoolizado e vinha cheio de queixas: “Ora essa! Se eu quiser fumar eu fumo, se eu quiser beber, eu bebo!”. Eu sentei num banco da praça que havia ali perto, e ele sentou-se ao meu lado. Tirou da carteira a foto da família e me mostrou: “Longe de casa, há mais de uma semana!...”

A foto me lembrou que precisava voltar logo pra casa, pois moro em Jaçanã, e se eu perder esse trem que sai agora às onze horas, já se sabe... Deixei aquele homem para trás e segui meu caminho. Logo depois do portão do cemitério, um cachorro me sorriu latindo. Eu, na verdade, não havia enxergado muito sorriso naqueles dentões expostos e corri tão logo os latidos começaram a ficar mais ameaçadores. O cão veio atrás de mim, e quanto mais eu corria, mais próximo ele ficava. Eu não tinha alternativa: se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come! Por sorte, encontrei com uns sujeitos que também estavam correndo e seguiam em direção a uma caminhonete. Consegui entrar junto com eles no veículo, não antes de ouvir o comentário de um pedestre: “Tá vendo? Se gritar ‘pega ladrão’, não fica um, meu irmão!

Alguns minutos depois, aliviado de não ter mais um cachorro me perseguindo, foi que percebi as sirenes logo atrás do nosso carro. Olhei ao redor e vi que meus companheiros na caminhonete haviam roubado um banco e muitas viaturas estavam em nosso encalço. Eu já não fazia idéia de que parte da cidade eu estava, mas pensei que íamos ao litoral, pois ouvi o motorista comentar “Eu prefiro as curvas da estrada de Santos...”. Não fiquei mais ali; com o carro em movimento, pulei na calçada e passei a ser perseguido por policiais a pé. Na queda, creio que cortei a boca, pois conseguia sentir o gosto de sangue e suor. Percebi que nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo.

Tentando fugir, eu precisava abrir caminho empurrando os transeuntes, o que fazia umas velhinhas gritarem “Selvagem! Selvagem! Selvageeeeem!”. Eu já ia sem fôlego quando senti umas pontadas violentas no peito, indícios de um infarto vindouro. Eu ainda cheguei a pensar “Alguma coisa acontece no meu coração!”, quando finalmente fui cercado pela polícia na esquina da Ipiranga com a Av. São João.

Na delegacia, recebi a visita da minha namorada e do meu advogado, curiosos em saber como eu tinha ido a um velório e terminei assaltando um banco. Eu nem mesmo sabia por onde começar. Só consegui soltar, vacilante “Eu não sei dizer, o que quer dizer, o que eu vou dizer...”. Estava preso, cansado, machucado e com uma leve indisposição para ouvir MPB.

29.11.06

O escolhido

São outros os tempos, definitivamente. Sequer os arrebatamentos de meros mortais aos sítios divinos, sem necessariamente passar pela burocracia de perecer do corpo e tornar-se espírito, já não ocorrem mais com a pompa dos tempos de Jacó. Para mim, não houve escada para o céu, nem anjos, nem trombetas. Lembro-me apenas de estar num café, quando chegou uma mulher linda, que jurei ser a mulher da minha vida. Olhei meu reflexo numa das janelas e pensei estar apresentável o suficiente para pedir-lhe o telefone.

Então, levantei-me da cadeira. Do resto, não me lembro. Sei que apaguei e acordei já em um ambiente tão iluminado que mal podia abrir os olhos. O eco no ouvido me fez acreditar que havia sido fulminado por um raio, pensamento que tangi da cabeça tão logo percebi que não estava chamuscado. Ainda não conseguia abrir os olhos para enxergar dois palmos a frente, mas uma voz firme bradou:
- Desliguem os holofotes, ora! Já dá para perceber que é esse mesmo o meu escolhido.

A luz diminuiu e pude perceber uma espécie de tribunal, presidido por um velhinho barbudo. Ao meu lado, anjos carregando os holofotes se afastavam, ao tempo que um outro me pregava um microfone à lapela. “Onde estou?”, perguntei.
- Estás no céu, Roxá, meu filho. Foste arrebatado para que o teu objetivo na terra a ti fosse esclarecido. És o meu escolhido.
- Deus, é você?
- Sim, e digo-te: voltarás à terra para guiar aqueles que me seguem rumo ao paraíso; está a vir o dia do Juízo Final.
- Peraí: eu sou o segundo messias? E o Inri Cristo? Vai me dizer que eu fui concebido pelo Espírito Santo?
- Não. Tu foste concebido no Espírito Santo, o que é bem diferente. Não te lembras que a lua-de-mel de seus pais foi em Vila Velha?
- Ah é... Mas se não sou filho legítimo de Deus, como posso liderar aqueles cujos nomes estão no Livro da Vida?
- Não sejas ingênuo. As coisas não se fazem mais como antigamente. Nunca mais eu participarei diretamente da concepção de um filho: as Marias de hoje já não são mais tão santas. Metem-te um exame de DNA e pedem uma pensão absurda...
- Realmente...
- Isso é culpa das novelas da Globo! Bem sei que Satanás tem ali um cargo de direção. Mas, enfim; voltarás à terra com a missão de...

Neste momento, Deus é interrompido por um oriental gorducho, que invade o tribunal indolentemente, sentando numa das cadeiras vazias ao lado de Deus.
- Pô, Iavé! Aí é demais! Já não havíamos combinado que Roxá seria o próximo Dalai Lama?
- Ah, Buda, não posso esperar até surgir a minha vez! Não percebe o clima de fim do mundo que a terra vive nesses dias? Mísseis na Coréia, guerra no Iraque, bombas no Líbano. É o background perfeito para o Juízo Final.
- Nada disso! Vocês ocidentais são sempre assim, acham que devem fazer o que lhes der na telha e os outros que se danem... É a minha vez, ele vai ser o Dalai Lama e ponto final!
- Japonês chato do cacete... – Resmunga Deus.
- Eu sou do Nepal, mas que saco! Estou cansado de lhe dizer isso!

Eu assistia calado àquela discussão, mas me achei no direito de intervir. Levantei o dedo e disse timidamente: - Mas, como eu posso ser o Dalai Lama, com esta minha aparência?
- A isto, dá-se um jeito – respondeu Buda e apontou o dedo para mim. De maneira instantânea, meus cabelos caíram completamente e minha barriga estufou. Buda completou: - Pronto. Agora é só trocar essa camiseta por uma túnica e se mandar para o exílio no Tibet.
- Ah, fala sério! Eu não posso ser o escolhido! Como vou ser o Dalai Lama se a única coisa que sei sobre Buda é que botar uma moeda embaixo de sua imagem dá sorte?

Surgiu então uma outra entidade, um negro de óculos escuros que sentou-se ao lado dos outros dois e me disse, com os braços cruzados: - Realmente, você é o escolhido! É o que me diz o Google! Só que não vai ser o Dalai Lama, mas sim o meu escolhido!

Buda virou-se para Deus e perguntou: - Quem é esse aí?
- Esse é Morpheus. Desde que um grupo de nerds imbecis inventou uma religião baseada no filme Matrix, esse cara fica me enchendo, dizendo que pelo regulamento das divindades, é a vez da divindade do continente americano ficar com o escolhido.
- Isso mesmo – retrucou Morpheus.
- Mas que nada! Você só pode mandar seu escolhido quando as máquinas tomarem o controle da humanidade! – gritou Deus.
- E então, Iavé! Você ainda acha que isso ainda não aconteceu? Nunca viu aqueles secadores eletrônicos para as mãos, que há em todo banheiro público? O sujeito prefere ficar vários minutos com aquele ventinho quente nas mãos que não seca porra nenhuma, a pegar um papel-toalha e ter as mãos secas em dois segundos! Quer sinal maior do controle das máquinas ao ser-humano?

A discussão começou a ficar acalorada, e eu fiquei realmente assustado com a possibilidade de, a qualquer momento, aparecer um elefante sagrado ali naquele tribunal e me requisitar como o novo escolhido dos Hare-Krishna. Novamente, ergui o dedo e perguntei com a voz fraquinha de respeito:
- Será que vocês não poderiam me mandar para casa enquanto discutem, e me trazerem de volta só depois de chegarem a um consenso?
- Que assim seja! – gritaram os três.

Acordei no café. “Que sonho mais ridículo!”, pensei. Numa das mesas, a mulher linda que jurei ser a mulher da minha vida ainda estava esperando o capuccino que havia pedido, ou seja, ainda podia lhe pedir seu telefone. Mas, uma segunda olhada no meu reflexo na janela me desencorajou. Olhei para o céu e gritei:
- Porra! Voltar careca e barrigudo é foda!

21.11.06

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