
- Maldito calor!
Rita, que tinha os olhos perdidos em lugar nenhum, voltou-se como se tivesse sido acordada pelo homem resmungão que sentou ao seu lado no banco da praça. Acordou, pois era mesmo possível que estivesse cochilando. A aroeira sacudia preguiçosa sobre eles e sua sombra dava uma moleza... A mulher balançava a cabeça ao sabor do farfalhar e deixava morrer seus olhos de peixe. Cochilava de olhos abertos, como um peixe.
- Fala-se muito em aquecimento global hoje, mas daqui a trinta e dois anos não vai haver um dia quente como o de hoje!
Rita olhou para o homem e concordou, com um sorriso sem dentes. Mas o homem nem o viu, provavelmente havia falado consigo mesmo. Estava assistindo de longe a uma partida de futebol entre garotos no outro lado da praça. Colocou o dedo no lábio como se fosse fazer um comentário, mas absteve-se. Antes, afundou-se ainda mais no banco da praça, deixando cair o pescoço pra trás.
- É uma aroeira-do-campo, sabia?, disse o homem, apontando com o nariz para cima na direção da árvore. Daqui a vinte anos, vai estar completamente extinta.
- Hmm?
- Pois é. Apesar de se adaptar a vários tipos de clima, nunca vai se adaptar a nós.
Uma das folhas da aroeira caiu sobra a calva do homem, como se a árvore chorasse o destino que este lhe previu ou cuspisse nele só de galhofa. Incomodado com a folha na careca, ele agitou com as mãos os cabelos e sentou-se mais direito no banco. Colocou novamente os dedos sobre o lábio inferior, porém desta vez sentenciou: - Daqui a duas décadas, nem mesmo esta praça vai existir.
Rita deu uma rápida olhada pela praça, como para confirmar sua perenidade e rebateu: - Pensei que a praça fosse tombada.
- Bom, tombada é, mas sabe como são os homens. A especulação imobiliária vai chegar logo por aqui e vão dizer que na verdade o que é tombado não é a praça, mas sim aquela estátua ali, toda cagada pelos pombos. Vão fazer um shopping e deixar a estátua intacta, no meio da praça de alimentação.
- Nossa! O senhor tem uma bela imaginação!
- Ah, mas eu estou falando da verdade. Daqui a poucas décadas, todo este lugar será outro.
- Ah, naturalmente, tudo vai mudar. Mudanças são necessárias. Com todo o respeito, isso é coisa de velho com saudades da juventude.
O homem veio chegando mais perto de Rita durante a conversa. Estavam já juntos, quando ele disse irritado, sem olhar para ela: Chega a ser irônico ouvir isso de você, sabia?
- Como irônico?
- A propósito, meu nome é Pierre.
- Hmm... gosto dos nomes franceses.
- É só uma coincidência. Digo, o fato de o meu nome soar como um maldito nome francês é apenas isso, uma coincidência.
- Não entendi.
Pierre cruzou as pernas e desenhou com o indicador direito no ar um círculo. – Meu pai era matemático. Batizou os filhos com fórmulas matemáticas. Eu sou a circunferência.
- Continuo sem entender nada.
- Dois-pi-erre. É a fórmula da medida da circunferência.
- Pi... ah, entendi agora. Ficou pensativa e completou: - Isso é sério?
O homem deu-se conta de que vinha se aproximando de Rita conforme conversavam. Descruzou as pernas e voltou o espaço de outra bunda. Tornou a olhar os rapazes jogando bola, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e inclinando para frente a cabeça. Depois sussurrou, mas não tão baixo que não permitisse Rita ouvir.
- Engraçado... Quando lhe contei isso pela primeira vez, você explodiu em gargalhadas...
- Como disse?
- ...se bem que naquele dia havíamos fumado um baseado. Aliás, eu sempre me lembrava de que com esta idade, você era mais bonita. A memória tem dessas coisas.
Rita irritou-se: - O que está insinuando? Que já nos conhecemos, que eu fumo maconha?
- Bom, eu concordo que isto vai lhe soar estranho, porque ainda hoje pra mim parece loucura...
- Eu nunca lhe vi antes, senhor!
- Eu acredito isso. Mas eu já lhe vi durante muito tempo. Praticamente, dezesseis anos seguidos. Rita Pereira dos Santos, trinta e quatro anos, professora. Mora aqui pertinho, do outro lado da praça.
Rita recolheu-se no banco. - Do que está falando? O senhor fica me vigiando... é um daqueles tarados? Eu, eu vou chamar a polícia!
- Caralho! Jesus, como é a maneira simples de se dizer isto? Olha, eu sou seu marido, eu vim do futuro!
Rita manteve-se recolhida ao ouvir o que ouviu, mas logo relaxou. Arrumou os cabelos com as duas mãos e dirigiu um olhar de compaixão ao homem grisalho, gordo e calvo. É louco, esse coitado. – Quer dizer que você é meu marido? Do futuro? perguntou sarcasticamente.
- Bom. Na verdade, companheiro, já que não casamos no papel.
- Ah, tá! E de quantos anos no futuro o senhor vem?
- Pode parar de usar esse jeitinho condescendente comigo que eu lhe conheço, está bem? Sei quando você está sendo sarcástica.
Pierre fez menção de se levantar, mas apenas ergueu a coluna e coçou a cabeça. Puxou um cigarro de um bolso da calça e o isqueiro de outro.
- Entendo, Rita, que você se sinta confusa com isso tudo. Eu mesmo quase enlouqueci quando tudo começou, afinal, a história toda é maluca. Mas eu vim do futuro. Mais precisamente, trinta e dois anos no futuro.
- O senhor é um daqueles escritores excêntricos?
Pierre acende o cigarro e dá uma baforada. Está tenso. Volta os olhos aos garotos jogando bola no outro lado da praça, enquanto se recosta no banco, estirando sobre o encosto o braço direito, na direção de Rita: - Você vai me conhecer quando eu estiver com dezoito anos. Um Pierre Ferreira Gonçalves, estudante. Estou ali mesmo agora, jogando bola com outros rapazes de minha idade, está vendo? Você vai me conhecer hoje, nesta praça, e vai tentar me seduzir. Bom, não sei direito como é que isso vai acontecer. Lembro-me que eu brigo com os rapazes no futebol e o Renato (aquele ali de azul) me quebra o nariz. Depois você vem ao meu encontro e nos conhecemos.
- Jesus, o senhor é louco...
- Gostaria que não viesse falar comigo.
- O quê?
- Falar comigo. Com aquele “eu”, aquele Pierre que está ali jogando bola agora. Se o Renato me der um soco ou qualquer coisa, não fale comigo. Apenas vá embora.
- Seu Pierre, desculpe- me, mas eu vou mesmo embora! Estou ficando assustada.
- Isso! Isso mesmo, vá embora!
Rita ajeitou a saia e fez que se levantaria. Ficou. Deu um leve sorriso e perguntou, mantendo-se distante de Pierre, - Se o senhor queria apenas me ver longe daqui, porque simplesmente não me assustou ou me forçou a sair antes de inventar essa história toda? Ou porque o senhor não tira “você” de lá e me deixa em paz?
- Bom, “me” tirar eu não posso. Infelizmente, pelo que eu entendi, eu não consigo me encontrar com o meu “eu” daqui. Se tento, sempre ocorre um evento que impede que nos encontremos. Aparentemente, é impossível criar este paradoxo no espaço-tempo.
- Isto está interessante. Se for assim, porque não fingiu então que me seqüestrava? Eu não precisava saber de tudo isso, senhor viajante do tempo, e assim tudo se resolveria. Rita estava se divertindo com o jeito de Pierre, que parecia muito nervoso com o que dizia, escolhendo as palavras. É uma loucura formidável, pensou.
- Ah, eu não resistiria a torcer o seu pescoço se lhe seqüestrasse. Ainda assim, lhe contar que você arruinou a minha vida, ou arruinará daqui a um tempo, parece ser uma pequena vingança que me satisfaz.
- Nossa, eu sou tão má esposa assim?
- Não no começo. Mas olha só para nós. Eu tenho dezoito anos e você tem trinta e quatro. Quando eu estiver com trinta, você contará quarenta e seis. Depois de uns anos você vai começar a enlouquecer de ciúmes por causa disso.
- Daqui, o senhor me parece ter mais que cinqüenta.
- Agora eu tenho exatos cinqüenta anos. Por ironia outra vez, estou aqui dezesseis anos mais velho diante de você.
A mulher não conteve as gargalhadas. Pierre se irritava. Por mais óbvio que fosse o fato de que ela não acreditaria em nada, ele parecia incomodado por não conseguir dar a notícia de modo convincente.
Rita agora se recompunha e se aproximava do homem. – Tudo bem, mas onde foi que o senhor estacionou o seu De Lorean?
- Bom, eu simplesmente dormi e acordei trinta e dois anos no passado. Não sei explicar como isto se deu. Eu pesquisei sobre o assunto, mas mesmo na minha época ainda não se falava muito a respeito de viagens no tempo. Encontrei por aqui algumas coisas como buracos de minhoca, deformações causadas pela gravidade no espaço-tempo, realidades alternativas, mas nada que me explicasse o que aconteceu. Às vezes, eu imaginava que era apenas um sonho.
- O senhor é maluco!
- Ouça bem: você vai fazer da minha vida um inferno. Seria muito bom, inclusive para você mesma, que saísse daqui agora e se mantivesse longe de mim. Daqui a dezesseis anos, você dará um tiro na cabeça, por causa de ciúmes, sua louca!
- Nossa, mas que tragédia! Rita gargalhava escandalosamente. Pierre a olhou como se detestasse desde sempre aquela risada de pato.
- Assim que descobri que estava no passado, em 2006, cuidei logo de procurar minha contraparte nesta época. Foi quando descobri que um encontro entre nós dois era impossível. Mais tarde, me lembrei de um acidente de bicicleta que me causou essa cicatriz que tenho no braço direito, poucos dias antes de lhe conhecer. Agora está pequena, mas na época fez um estrago enorme. Mas veja lá: o Pierre desta época não tem a cicatriz. Foi porque na véspera, eu rasguei sorrateiramente o pneu da bicicleta. O Pierre daqui nunca sofreu o acidente.
- Não percebo nada daqui.
- Isso prova que eu posso interferir nos eventos que ocorrem com minha contraparte. Só não posso encontrá-lo pessoalmente.
Ria esganiçada a Rita.
- E o senhor veio do futuro apenas para impedir que nos conhecêssemos?
- Bom, não sei mesmo que porra eu vim fazer nesta época. Eu apenas acordei aqui já faz um ano e tenho vivido mal. Arrumei um trabalho mal pago e um quarto mobiliado aqui perto. Você é a primeira pessoa a quem eu falo do futuro desde que me dei conta de onde estava. Mas se eu podia mesmo fazer à minha contraparte do passado o favor de nunca lhe conhecer, eu precisava fazer isso!
- Essa é a coisa mais engraçada que eu já ouvi. O senhor não acha que o destino vai dar um jeito de que eu lhe conheça de outra forma e lhe arruíne a vida?
- Bom, eu tenho lido sobre realidades quânticas. O futuro não é uma linha reta e determinada, como imaginamos. Muda-se uma simples coisa agora e o futuro pode ser completamente diferente. A quantidade de realidades alternativas é praticamente infinita dada a quantidade de eventos aparentemente insignificantes que se alterados, alteram todo o futuro. Só o fato de eu trabalhar e interagir com pessoas nesta época já nos dá a possibilidade de muitas outras realidades quânticas, mas eu precisava garantir uma em que eu não lhe conhecesse. Para ver se ao menos em uma há um Pierre feliz.
- Sei. É como o bater das asas da borboleta na China que causa chuvas na casa do caralho?
- Você vai se tornar uma mulher velha e amargurada aos cinqüenta. Terá o espírito de alguém de noventa anos. Vai implicar com tudo o que eu faço, não vai conseguir suportar a juventude no meu rosto. E eu sempre lhe digo que isso é coisa de velha que tem saudades de quando jovem, daí a primeira ironia. No fim, nos separamos e você se mata.
- O senhor é o louco mais curioso que eu já conheci.
- Antes de se matar, sua bruxa, você consegue arruinar meu patrimônio, acabar com todos os meus relacionamentos, fazer da minha vida um inferno. Juro que cuspi muito no seu túmulo por dezesseis anos.
Rita não agüentava mais tanta gargalhada. Aquele sujeito era louco, definitivamente. Tentou se recompor e viu que os rapazes terminaram a partida de futebol e já se despediam. O rapaz que Pierre disse ser sua contraparte nem brigava com o amigo, como este havia previsto. Maluco mesmo, o coitado! Respirou fundo e disse – O senhor devia escrever contos. Tem uma excelente imaginação!
- Ah, quer saber? Foda-se! Foda-se, vai para o diabo! Eu desisto: se quiser se matar daqui a dezesseis anos, lembre-se de dar um tiro na barriga em vez da cabeça. Só para ao menos me dar o prazer de saber que você morreu sofrendo.
Pierre saiu irritado. Rita ainda riu muito de tudo que aquele homem lhe falava, quando viu que o rapaz que Pierre disse ser ele quando jovem passava ali por perto. Até que eram bem parecidos. Deviam ser parentes. Ela levantou e foi em sua direção, correndo.
- Ei, rapaz! Vem cá!
- Que foi?
- Qual o seu nome?
- Pierre, por quê?
- Posso ver seu braço direito? Você tem uma cicatriz aí?
- No braço direito não. Mas tenho uma grandona aqui nas costas, que fiz há uns dias, andando de skate.
- Cristo!
- Pois é. Eu queria andar de bicicleta, mas algum louco filho da puta rasgou meus pneus... daí inventei de sair de skate e me fodi.
Rita olhou a cicatriz enorme do rapaz, e ficou morrendo de pena. Aquilo devia doer uma barbaridade, ainda estava fresquinha...
– E isso não dói não? Você precisa cuidar melhor disso senão pode infeccionar, seu maluco!
- Estou cuidando.
- Estou vendo mesmo... com isso tudo inflamado, menino! Vamos, eu moro aqui perto, posso lhe fazer uns curativos.
- Tudo bem.
- A propósito, meu nome é Rita.