6.2.06

O macaco e o elefante

O homem é o animal estúpido que conhecemos porque sabe que vai morrer. Tudo bem, os elefantes também sabem que vão morrer e não são tão patéticos. Mas o homem tem a agravante de acreditar num pós-vida, e isto sim, o faz se comportar como um idiota.

Os vikings tinham medo de morrer de velhice ou de doença. Sucumbir assim era como a recusa de seu visto de entrada no Valhala. Somente aqueles que morriam em campo de batalha tinham direito a entrar no paraíso, onde poderiam batalhar entre si apenas por diversão, durante toda a eternidade.

Os cruzados deixaram casa, família, o caralho, para tomar de volta Jerusalém dos "infiéis". Apesar das circunstâncias políticas que envolviam o conflito, muitos ali estavam em busca de uma certa realização ascética, uma prática que garantiria o carimbo de São Pedro no passaporte.

É de nosso conhecimento a motivação dos homens-bomba do Islã. Morrer em batalha na guerra santa lhes reserva um pedacinho do paraíso, onde poderão desfrutar dos carinhos de sessenta virgens, para sempre. Nos primórdios do Islã, pode ser que os homens não estivessem lá muito interessados em conquistar novos territórios para a sobrevivência futura de seu povo, daí o providencial incentivo das sessenta virgens. Atualmente, essa mesma recompensa é invocada para justificar as explosões de seres humanos ao redor do mundo. Para nós, ocidentais, abandonar a vida desse jeito pode parecer uma desvantagem na relação custo-benefício, até mesmo porque as sessenta virgens fatalmente deixarão de sê-las quando no paraíso chegar o guerreiro santo. Daí, ele vai ter que passar a eternidade convivendo com sessenta TPMs, sessenta cartões de crédito estourados, sessenta sogras.... ah, sogras não! Me esqueci. Elas sempre vão para o inferno!

Nós, ocidentais do século XXI, com nossa cultura cada vez mais laica, aparentemente seguimos livres dessas esquisitices, certo? Errado. Estamos cada vez menos crentes, é verdade, mas ainda agimos de maneira idiota baseados no pós-vida. Se não é assim, porque diabos os jornais europeus estão publicando caricaturas do profeta Maomé? Querem de alguma forma chamar a atenção para seus nomes e deixa-los para a posteridade, que é a forma agnóstica de vida após a morte. A fama e a vaidade de ter seu "intelecto" reconhecido pelas futuras gerações é o céu dos ateus.

Essa fixação pela vida após a morte vai nos levar diretamente a ela. Os muçulmanos, com razão, estão ofendidos, e os ocidentais, agarrados na vaga “liberdade de expressão”, estão conseguindo enfurecê-los mais ainda. Se continuar assim, vamos ter uma guerra das mais estúpidas e desnecessárias.

Mas isso é outra história. O fato é que nossa consciência de que vamos passar desta para não se sabe qual nos qualifica como os seres mais idiotas que habitam esse mundo. Agora dá licença que está na hora da minha estupidez vespertina e eu tenho que fazer minha caricatura diária do Edir Macedo.

Que saudade de quando éramos macacos! Só os elefantes tinham esse tipo de problema.

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