3.3.06

Aos pedaços

Finalmente acabou o carnaval. Finalmente, digo eu, não porque eu não estava gostando (gostei até demais!), mas porque este feriado acabou comigo. Tanto sobe e desce em Olinda, tantas noites em claro no Recife Antigo que eu fiquei em pedaços.

Era o que eu explicava no posto policial. Eu fiquei em pedaços e um dos meus pedaços foi perdido na terça-feira à noite, no Recife Antigo. Acho que algum malandro aproveitou que eu estava curtindo minha bebedeira e levou minha perna mecânica durante um cochilo. “Levaram uma perna sua e você não percebeu?” riu o policial. De fato, eu só vim dar conta da perna ausente quando duas crianças fantasiadas de Frodo e Sam chutaram uma lata de refrigerante para o meu lado e eu não pude chutar de volta. Olhei ao redor para tentar encontrar o ladrão, mas não vi muita coisa. Alias, com motivo.

Os olhos eu já tinha perdido no sábado. Na verdade, apenas o direito, que é de vidro. No meio do empurra-empurra de Olinda, um Presidente Lula me deu uma cotovelada e o olho pulou da órbita. Eu tentei descer a ladeira correndo atrás dele, mas uma Sailor Moon muito atrevida o chutou pra bem longe. Ainda vi o olho rolando ladeira abaixo, mas como já ia distante, dei de ombros e segui uma troça que passava perto.

Os dois policiais do posto riram da minha história. “Foi por isso que você está de óculos escuros essa noite?”. A propósito, era justamente por essa razão que eu estava fantasiado de Elvis. “Yes, baby!” respondi e tentei balançar como o Rei, mas com uma perna só ficava difícil.

Feita a ocorrência para a polícia, sentei um pouco para descansar. Ao meu lado estavam um sujeito fantasiado de Pelé e outro de Roberto Carlos (o cantor, não o jogador). O Pelé olhou para mim e disse:
- Não fica assim, Presley! Em 66, quando me cacetearam até me tirarem da Copa, eu me senti como se tivessem me levado uma perna. Mas dei a volta por cima, e quando fazia um gol na Copa de 70, eu gritava: “é pra vocês, seus ladrões de pernas filhos da puta!” e dava um soco no ar. Entende?
- Eu nem falo nada – disse o Roberto Carlos. - O Erasmo sempre teve inveja dessa minha perna-de-pau. Bicho, muitas vezes, depois dos shows, ele tentava roubá-la para fazer sucesso com os brotos... hehehe! Mas meu charme era esse. Lá em Cachoeiro do Itapemirim tem até uma lasquinha dela que eu doei pra paróquia.


Na quarta-feira de cinzas, eu encontrei a perna. Toda suja, cheia de riscos de caneta para simular cabelos. Provavelmente, algum gaiato tentou assustar alguém com o mito da Perna Cabeluda do Recife Antigo. O olho, eu ainda não encontrei, e é por isso que tenho vindo trabalhar ainda vestido de pirata.

Nenhum comentário: