PARIS, FRANÇA, 22 de setembro de 1812
Napoleão posava para um retrato, pouco antes de invadir a Rússia. Tinha o semblante preocupado, pois havia sonhado que a campanha russa seria um desastre. Tentei animá-lo, trazendo-lhe de presente um baralho com portuguesas nuas que eu comprara em Lisboa.
- Basta, Rorschach! Isto é repulsivo!
- Calma aí, Napa. Tu tá muito estressado, sabia? Relaxa um pouco... A Rússia é só mais uma campanha!
- Como posso relaxar? Acabei de sonhar que todos os meus soldados viravam picolé e os russos os chupavam! Certamente, é um aviso de que um inverno rigoroso na Rússia vem aí e vai atrapalhar meus planos.
- E você acredita nesse negócio de sonhos reveladores? Isso é bobagem... vai tranqüilo e invade aqueles bebedores de vodka. Você não vai perder essa chance de conhecer a Anna Kournikova, né?
- Quem?
- A tenista russa, Napa. Cara, aquela mulher sim merece uma invasão!
- Não conheço...
- Bom, deixa pra lá. Olha... você deixou cair tinta na sua farda.
- Merd!
Napoleão tentou cobrir a mancha, colocando a mão sobre a barriga na altura em que estava manchada. O pintor continuou seu trabalho, e retratou o Napa naquela posição ridícula, com a mão na barriga, como quem acabou de comer uma feijoada e não desceu bem.
HONOLULU, HAVAÍ-EUA, 06 de dezembro de 1941
Eu era faxineiro na base de Pearl Harbor, no Havaí, meu segundo emprego desde que fui morar nos EUA. Era o único brasileiro na base e, com muita ginga, tinha conseguido a simpatia das altas patentes das forças armadas americanas. Um deles, o almirante Joseph Thompson me era confidente, e sempre tomávamos muitas cervejas para matar as saudades de casa (a família dele era de Minnesota).
- Ah, Rorschach, sinto muita falta da minha esposa! Você acredita que ela não me escreve há seis meses?
- Verdade, almirante? Será que aconteceu alguma coisa?
- Ah, pára com essa frescura de me chamar de almirante! Me chama de Joe! Joe-No-Arms, como me chamavam quando eu era recruta.
- Ok, Joe.
- Bom... eu sonhei com minha esposa no domingo passado. No sonho, ela me traia com um negão do Mississipi.
- Ah, Joe! Isso de sonhos serem avisos é bobagem!
- Sei não, Rorschach. Ontem eu sonhei que essa base seria atacada por kamikases japoneses.
- Qual nada, Joe! Você deve estar impressionado por causa dos boatos de que o presidente Roosevelt soube que os japas tão planejando um ataque.
- Estou pensando seriamente em esvaziar a base...
- Fala sério, Joe! Vai me dizer que tá com medo de um japinhas caírem de seus teco-tecos aqui na base! Tudo isso por causa de um sonho! Tenha culhões, homem! Assim, vão mudar seu apelido para Joe-No-Nuts!
- É... acho que você tem razão.
- Bom, com razão ou não, eu não vou estar aqui. Tou indo hoje pro Brasil visitar meus parentes... saí de férias, rapá!
- Parabéns! Um brinde às suas férias e aos seus bons conselhos! Você é um grande amigo, apesar de ser brasileiro.
BRASÍLIA-BRASIL, 01º de março de 1996
Eu estava em Brasília, com a banda de uns amigos de Guarulhos, com quem eu toquei quando eles ainda se chamavam Utopia. Eles tinham saído de um show, e estávamos tomando umas cervejas e conversando sobre o passado em comum. Eles estavam fazendo sucesso, enquanto eu amargava a profissão de motorista de ônibus na Capital. Quatro deles estavam numa outra mesa conversando alto, enquanto eu conversava com o tecladista, na mesa vizinha.
- Ta vendo, Roxá? Você é um vacilão! Você deveria ter ficado com a gente. Mas não, insistiu em casar com aquela manicure e vir morar em nessa cidade, no meio do nada...
- É rapaz... se arrependimento matasse, eu já estaria enterrado, e não ganhando hemorróidas no banco daquele ônibus. Mas o Stuart Sutcliffe saiu dos Beatles por causa daquela alemã e ninguém fica enchendo o saco dele como vocês ficam fazendo comigo...
- Hemorróidas no ônibus? Isso pode dar uma música pro novo disco... – interveio o vocalista Dinho, da outra mesa.
- Ei, vou começar a cobrar direitos autorais! – retruquei. Já não basta eu não ganhar nenhum real por ter escrito as músicas de vocês...
- Você não escreveu todas! A Sabão Crá-Crá não foi você...
- Ei, Roxá, deixa o Dinho pra lá, antes que ele comece a fazer palhaçadas. Você sabe que ele adora te imitar, né? – disse Júlio, o tecladista.
Julio parecia tenso, e bebia sua cerveja mais rápido do que eu conseguia encher seu copo.
- Daqui a pouco vocês tão indo pro aeroporto, né? Já vão voltar pra Guarulhos? – perguntei.
- É... mas eu tou pensando em voltar de ônibus, sei lá... Tive um sonho estranho, com o avião caindo... tou me cagando de medo.
- Porra, Julio, essa história de novo? Onde já se viu acreditar em sonhos? Eu mesmo costumo sonhar que sou atropelado por um metrô, a até agora nem bicicleta me pegou...
- Hahaha! – riu Dinho. Julio tá assim desde que assistiu La Bamba!
- Bobagem... Julio. Voltar de ônibus de Brasília a São Paulo é uma visão pior do que bater na Serra da Cantareira e ter os corpos despedaçados...
- Credo!
Dinho, ouvindo a conversa, subiu na mesa do bar e começou a improvisar uns versos, para zoar da cara do companheiro assustado. Eu precisava sair porque no dia seguinte teria que trabalhar cedo e me despedi dos ex-colegas.
- Vê se contam umas historinhas bonitas pro Julio dormir. Ele anda sonhando muita bobagem ultimamente.
22.3.06
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Um comentário:
Roxá, faltou vc falar do seu encontro com Karl Marx, quando ele te afirmou que:
"sonhei que a minha teoria seria usada por pessoas que, dizendo estar lutando por uma sociedade mais justa, longe das explorações das classes, estariam, na verdade, pensando apenas no seu crescimento individual. Neste sonho o comunismo só se tornaria realidade quando a terra fosse invadida por seres alienígenas que destruiriam a humanidade e usariam o meu escrito para fundar uma sociedade nova e mais justa."
e você disse: - relaxa barbudo. O marxismo será a filosofia de vida do século XX. No século XXI não haverá mas desigualdades sociais. Confie no teu taco velho...
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