Fui dia desses a um café filosófico na Livraria Cultura. Era uma sexta-feira e havia alguns poucos poetas disputando o microfone com os filósofos, causando sono na platéia, até que um deles conseguiu quebrar o marasmo e arrancar aplausos verdadeiros. Infelizmente não me lembro o nome do sujeito, mas lembro que ele se apresentou como um poeta já veterano pelas bandas das Alagoas, que estava ali com muito prazer, ajeitou o óculos na cara fina e começou a declamar seus versos. Recitou quatro poemas e já no terceiro foi aplaudido de pé. O poema chamava-se Puta Minha (!!!) e lá pelas tantas trazia os versos seguintes:Da vagina que me expulsa, eu nasço
Na buceta que me recebe, eu morro
Algumas senhoras ali presentes chegaram a enxugar uma lagrima atrevida que escorria furtivamente e, de fato, muitos ficaram emocionados. Não chegaram a ficar chocados com as palavras de baixo calão que recheavam o poema, já que, depois que Ferreira Gullar escreveu Poema Sujo, chamando nomes feios que jamais sairiam da pena de Camões, e fez dele a maior obra em versos da literatura brasileira, encontrar um caralho flutuando hoje em dia na poesia nacional já não é mais tão incomum. Muitos comentaram as figuras de linguagem (o paradoxo que ele encaixou nos versos acima foi genial, na minha opinião), a metrificação perfeita, as rimas ricas. Eu achei os versos muito bonitos e fui pessoalmente parabenizar o poeta alagoano. Ele, muito tímido, agradeceu e sentamos para discutir sua criação. Passou a falar de sua obra, me oferecendo um folheto que continha transcritos os poemas recitados na noite. Aí, sim, eu fiquei chocado.
Buceta, no poema dele, levava acento circunflexo. Virou bucêta, uma desfiguração ortográfica de um nome tão sonoro! É bem verdade que a palavra se origina de boceta (bolsa minúscula), e que o “u” substituiu o “o” por causa de nossa prosódia, de variações da língua e tal, mas regra nenhuma justifica o uso do acento. Do mesmo jeito, a palavra cu, que nos versos
tão querido de minha lascívia
é bem este teu cú (sic) rosado
que, co’ afinco, de tanto me negares
não vejo em quais outros lugares
encontrei-me, como nele, saciado
trazia um deslocado acento agudo. Enquanto eu lia estupefato o poema, ele me falava da estrutura, do esforço em encontrar rimas ricas, de Lívia, a musa inspiradora ("rima com lascívia! he he he")...
- Mas buceta não tem acento!
Ele me olhou enfurecido e gaguejou algumas palavras. Penso que ele ia jogar a culpa no digitador, mas continuei antes meu pensamento:
- Já que você se preocupou tanto com a forma, deveria cuidar também da ortografia.
- Olha, tu sequer conheces a minha inspiração de poeta para julgares os eventuais equívocos do meu trabalho...
- Pois a musa inspiradora deve ter um grelo e tanto, pra sua buceta ter acento circunflexo!
Os intelectuais que formavam a platéia entreolhavam-se entediados, mas uns gaiatos que estavam perto de nós começaram a rir dessa minha colocação e juntaram-se para observar a discussão. Sim, pois o poeta começou a ficar exaltado comigo e passou a falar alto:
- Imbecil! São obtusos como tu que sugam o néctar de nossa vontade, que furtam de nós, poetas, o desejo e a ânsia de criar...
- Cara, me escuta! Eu apenas tou mostrando erros de grafia, nada mais! Não quero que você deixe de escrever! Pôr acento onde não se deve, foi só isso o que você fez. Você não acentuou “tu”, por exemplo, mas acentuou “cu”...
- Olhe aqui! O poema é meu! Eu boto acento no meu cu se eu quiser e assim entender!
Um dos gaiatos que assistiam ao debate soltou uma galhofa:
- Quando dizem que poeta é tudo viado, eles reclamam! Esse aí tá brigando pra botar sei-lá-o-quê no cu!
Daí por diante, percebi que estava mesmo sendo inconveniente, pois o coitado do alagoano, por minha causa, tinha passado de astro da noite a palhaço. Ele agora discutia com o grupo de gaiatos e, tentando ser educado, fui lhe pedir desculpas:
- Olha, camarada... foi mal, não tinha intenção de te sacanear...
- Vai tomar no cu, seu gordo!
Aí então ele pegou pesado. Fui me desculpar com o cara e ele me chama de gordo! Não podia ficar quieto. Contra-ataquei:
- Gorda é a sua mãe, aquela vaca!
- Não mete minha mãe no meio, seu punheteiro! Chupa-picas do inferno!
- Ah é? Então toma!
Acertei um murro bem no meio daquela cara fina. O poeta ficou um tempo desorientado e em seguida voou no meu pescoço. Os gaiatos ficaram gritando “porrada! porrada!”, os intelectuais permaneceram imóveis, assistindo entediados àquela demonstração gratuita de selvageria, mas uns seguranças truculentos me pegaram e jogaram-me na rua com extrema facilidade. Caí de mal jeito na sarjeta e me levantei ajudado por um mendigo bêbado e solidário que por ali passava. Eu ajeitava minhas roupas quando ele me perguntou:
- Que foi, filho? Não pagou a conta, foi?
- Nada... o senhor acreditaria que tudo isso aconteceu por causa de buceta?
O mendigo olhou-me tristemente, respirou fundo e completou, com certo ar de sabedoria:
- Claro que eu acredito, filho! Afinal, estou nesta situação hoje por esse mesmo motivo.
2 comentários:
Ri muito com esse texto!
kkkkk! Porra, nessa vc se superou, velho! Muito bom esse texto. Nem Bukowski escreveu algo tão hilário. valeu!
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