7.11.07

A verdadeira origem do poker

* Texto publicado na revista Card Player Brasil nº 1, em julho/2007



Uma certa nebulosidade paira sobre a origem de nossa paixão, o Poker. Entretanto, aceitamos como verdadeiros os relatos que afirmam que o Poker é um jogo nascido nos EUA. Será? Esqueçam os caubóis e as dançarinas de cabaret do Velho Oeste. Nesta coluna vamos contar a verdadeira história do jogo de cartas mais apaixonante deste setor da galáxia.

Os pesquisadores afirmam que um jogo parecido com o Poker era jogado inicialmente nos barcos do Mississipi, e o americano Jonathan H. Green o definia como um cheating game (jogo de trapaça). O Poker passou a ser mais difundido por volta de 1830, no Oeste dos EUA, onde a fartura de ouro permitia altas apostas. Seu nome poderia derivar do alemão Pochen, do francês pocaire, ou até mesmo da palavra hocus-pocus. Tudo balela! Na verdade, o grande responsável pelo surgimento do jogo foi, pasmem, nosso El Rey do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Dom João VI.

Antes que o leitor jogue esta página ao fogo e ameace me estrangular em um heads-up, passemos às evidências históricas de nossa pesquisa.

Em 1808, Dom João VI veio ao Brasil fugido da fúria conquistadora de Napoleão. Em sua bagagem, trouxe um baralho onde a figura de Napoleão estampava as cartas do rei. Remoendo sua vergonha na viagem de navio até a Terra Papagalis, Dom João embaralhava suas cartas, depois as dispunha de cinco em cinco, imaginando seqüências que poderiam derrotar Napoleão:

- Neste jogo, tenho cá dois Napoleões e três 10. Cá neste outro, tenho quatro ases. Ai, Jesus, se a vida fosse tão simples! Q’ria eu com estes quatro ases vencer dois Napoleões.

- Ó João – dizia-lhe Dona Maria, a Louca, sua mãe– Não és tu que estás a inventar o jogo? Ora pois! Podes muito bem dizer que quatro cartas de mesmo valor vençam dois Napoleões, ó pá! E, afinal, de que te vale seres rei, se não podes inventar as regras?

Com os sábios conselhos de D. Maria, desembarcou a Corte Real no Brasil. O novo passatempo de D. João era embaralhar as cartas, dispô-las em mãos de cinco, e ver em qual mão aparecia uma carta de Napoleão, para imaginar seqüências que pudessem derrotá-la. Evidentemente, nem sempre nas cinco cartas aparecia uma carta do rei, motivo pelo qual o jogo estava ficando maçante para D. João. O Imperador teve então a bela idéia de representar Napoleão em um outro jogador, e não mais na carta do rei. Para tanto, chamou um escravo da Corte, chamado Eusébio, que tinha a língua presa.

- Ó Eusébio, toma lá cinco cartas.

- Po’ quê?

- Porque estou mandando! Que tens lá? Dois pares? Rá! Ganhei!

- Po’ quê?

- Tenho um par e uma trinca. Meu jogo é melhor que o seu.

- Po’ quê?

- Por quê? Ora... porque eu inventei o jogo e invento eu as regras, ora pois! Ah, e enquanto estiveres a jogar comigo, chamar-te-ás Napoleão.

- Po’ quê?

Para deixar o jogo mais atraente e divertido, o sádico D. João convidava mais pessoas para a mesa, também serviçais do palácio. A partir de então, para se jogar, era preciso apostar. As apostas eram feitas em chibatadas: quem ganhasse a rodada, tinha direito a dar em Napoleão (no caso, o pobre Eusébio) tantas chibatadas quanto tivesse apostado. Era assim que D. João se vingava do francês. O coitado do escravo, que não tinha nada a ver com a invasão da França e não entendia patavina do jogo, sempre era açoitado. Até que, graças à inteligência e à ginga adquiridas na capoeira, decidiu que não precisava ter (ou muito menos saber que tinha) uma mão boa, caso fingisse que tinha uma. Estava criado o blefe:

- Eu aposto duas chibatadas.

- Eu cubro!

- Eu aposto t’ês – dizia Eusébio, cheio de confiança.

- Er... eu saio!

Ao baixar as cartas, Eusébio mostrava à todos que, na verdade, tinha uma mão fraca. D. João ficava enfurecido e bradava com os últimos ventos dos pulmões:

- Eusébio, isso não vale!!!

- Po’ quê?

D. João não admitia perder para “Napoleão” novamente. Para não mais ficar mais desmoralizado, esqueceu a vingança e passou a apostar em dinheiro, pois é melhor perder fortuna do que perder prestígio. Logo, o Eusébio do “Po’ quê”, como ficou conhecido, passou a ganhar o dinheiro do Imperador. Ficou rico e comprou sua liberdade. Criou uma casa de jogos, onde os fidalgos se reuniam nas noites quentes do Rio de Janeiro para jogar o famoso Po ’ quê. Também marinheiros ingleses visitavam a casa de jogos e nesse intercâmbio, o Po’quê de Eusébio migrou para os EUA e, depois de algumas adaptações e melhoramentos, virou o nosso glorioso e amado Poker.

Há ainda registros históricos de que uma das variedades mais apaixonantes do Poker, o Texas Hold’em, teria surgido na Bahia, onde os jogadores intercalavam frases como “ó, dengo” entre as partidas, com aquele cantar gostoso na fala. Uns texanos que passavam pelo local, deitando olhos gananciosos nas bacias petrolíferas de Camaçari, entendiam aquilo como “hold them” e levaram a modalidade para casa, no Texas. Mas isso já é assunto para outra coluna.

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